domingo, 18 de março de 2012

Mais forte que o santo

Era noite de terreiro. 
Vacilo seria não estar naquela adoração. 
Fui com meu vestido cru, naturalmente puro e o cravo vermelho pra me acompanhar.
Chão bom pro pé assentar de tanto sambar. 
Santo forte havia de incorporar, o ilê bradar ao cantar de amor e fé. 
Era o que eu queria e o que tinha.
Na dança os santos me envolveram com uma doce morena.
Com jeito matreiro me engracei e ela agraciou. 
O desejo aumentava enquanto a saia rodava, e os corpos se encostavam. 
Até que a poeira do terreiro subiu. 
Nos não pudemos conter o que de dentro vinha. 
As filhas de santo se beijaram até o sol raiar.
Entre os santos e bambas que ali estavam a festejar.

Das minhas mentiras

A cada dia que passa eu venho admirando mais rostos nas ruas. 
Rostos do esteriótipo que mais agrada.
Nunca sou correspondida, porque não seria essa a intensão.
Tento e invento maneiras de te trair, mas ai sou eu que me traio primeiro.

Dessa vez era ele

Como maratonista lá vou eu correndo para o embarque do trem. Mesmo na correria alguém me chamou a atenção. As portas se fecharam, trem partiu e pude, se assim posso dizer, me acomodar naquela lata de sardinha.


Mesmo sem conforto recuperei meu fôlego ao observar o jovem rapaz. Alto, cabelo castanho bem aparado, barba feita, olhos escuros e atentos no compassos da batida inquieta de seus pés. Nem muito forte e nem muito magro.


O que me chamou atenção? Não sei. Um cara e sua normalidade. Mas pára tudo... 
Depois de tanto tempo estava olhando para um HOMEM! E o desejando!

domingo, 11 de março de 2012

Espionagem

No passeio ela pressentiu que alguém a reparava. Constatou isso ao usar o espelho do estojo de sombras, como um "retrovisor". Ele refletiu um olhar assustado, de alguém que foi descoberto.

Ela fez isso porque pressentiu olhares, que às vezes comiam. Outras vezes que apenas não a queriam distante daqueles passos, que apenas a acompanhavam. Aqueles olhos castanhos seguiam-na. Era um olhar tímido, o suficiente para não estar frente a frente e audacioso ao segui-la perenemente por todo passeio.


Ao descobrir, Marina sorriu como se agradecesse a proteção de seu espião, aliás, espiã.
Ao ser descoberta, a "espiã" envergonhou-se, mas piscou vagarosamente, como se dissesse "por nada".


Assim foi, por dias, semanas... Não se sabe ao certo quanto tempo se passou. Tanto passou que os olhares não mais bastaram. Os olhares passaram a se olhar fixamente e os lábios também começaram a se tocar.

Espelho da verdade

O espelho refletia toda a verdade. E eu tive nojo, incompreensão, pânico, desespero, suor, muito choro e clafrio. Tudo isso, enquanto me olhava.
Era eu mesma que estava ali? Tudo aquilo havia me mascarado. Frustrei-me e fugi. Deixando mais choro, incompreensão, medo, tristeza, choro e muito soluço. E nem deixei as desculpas. Deixei apenas interrogações.
Fugi antes mesmo de você fazer minhas malas. Porque eu mesma não tive coragem.
Antes mesmo de me indagar, fugi de mim mesma.
Hoje entendo um pouco melhor o que o espelho me mostra.
Mas mesmo assim, o que gostaria de ver refletido, é meu rosto em seu olhar.